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Contar o passado, confabular o presente: a construção da história nas narrativas de preto-velhos

14/03/2010

Vânia Z. Cardoso
Departamento de Antropologia | Programa de Pós-graduação em Antropologia Social
Universidade Federal de Santa Catarina

resumo Em festas em torno do dia 13 de maio e em giras que acontecem durante todo o ano nos terreiros e centros ao redor da cidade do Rio de Janeiro, o som dos atabaques e dos pontos cantados clamam pela chegada dos espíritos dos preto-velhos. Oferecendo conselhos e ouvindo confidências, compartilhando a feijoada das festas, dançando e trabalhando para curar seus filhos, os pretos velhos envolvem aqueles que lhes procuram na própria sociabilidade onde seus poderes de conceder proteção aos que dela necessitam ganham sentido e se tornam eficazes. Ser implicado nesta sociabilidade é também adentrar o emaranhado de uma constelação de memórias, de atos e de estórias.
Estórias sobre o passado, sobre marcas efêmeras da presença dos preto-velhos e inscrições de suas ausências, estas narrativas entremeiam os rituais e o cotidiano, e são elas mesmas entremeadas por outras estórias. Tais estórias não estão enquadradas como eventos de performance de um narrador, e a poética local resiste à sua textualização enquanto estórias dissociadas da socialidade da performance narrativa. Aqui me volto para estas estórias como traços do passado que se insinuam no presente através das performances do narrar. O contar de estórias sobre os preto-velhos não se deixa apreender em um sistema de narrativa histórica, mas se insinua por entre as frestas daquele sistema. Como a iluminação profana de que nos fala Benjamin, tais estórias interrompem o fluxo da história e produzem um espaço de tenso confabular. Neste narrar não é uma (outra) verdade histórica que se constrói, mas fragmentos do passado e traços do presente, saturados por múltiplos imaginários de raça e de nação, que são conjurados pelas performances do contar e encorporados pela presença dos espíritos.

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